CORAÇÃO
DE MÃE
Quem pensa que a ama-seca
de antigamente não existe mais, não conhece o Manon, um pássaro que além de
chocar o ano inteiro, também cuida dos filhotes dos outros.
Com a super valorização da
eficiência nos anos 80, virou "caretice" ficar em casa, cuidando dos filhos e
constituindo uma feliz e prolífera família. Quem acha que os velhos tempos estão
enterrados de vez, precisa conhecer o Manon, este pássaro de aparência discreta,
mas cuja eficiência se processa de outra forma. Sem ele, muitas espécies praticamente
não existiriam em cativeiro e por uma razão muito especial: ele é doído por sua
prole. E não apenas pelos seus filhotes, mas também pelos de outros pássaros da
mesma família, que ele cria sem o menor preconceito. Foram esses dotes de "pai
adotivo" que lhe valeram a consideração dos criadores não apenas no Brasil, como
em todo do mundo. Afinal, Manon é pai e mãe para toda hora, exatamente nos moldes
de antigamente. Originário da Ásia, este pássaro é membro da família dos Estrildinos
e, ao contrário de muitas aves, surgiu graças à intervenção do homem. O Manon
é resultado de uma seleção de criadores japoneses a partir da espécie silvestre
Lonchura striata - raríssima hoje em dia. Com aproximadamente 11cm de tamanho,
ele habitava as regiões da Índia, China Meridional, Taiwan, sendo encontrado desde
o Sul até Sumatra.
Através da seleção, o Lonchura striata ganhou sua variedade doméstica,
o Manon. O nome brasileiro deriva de designação francesa, Moineau du Japon (Pardal
do Japão), mas há quem o conheça também por Capuchino do Japão. Na Inglaterra,
o nome é Bengalese. Seja qual for a denominação, porém, o indivíduo em questão
é o mesmo: um passarinho com ares humildes e coloração discreta, que vai do preto
ao branco, passando pelo marrom e canela. As cores podem mesclar-se em formar
um padrão uniforme ou absoluto; portanto, existem Manons totalmente brancos, como
outros branco e canela e até tricolores.
PAIS ADOTIVOS
Como no velho ditado que diz
que em coração de mãe sempre cabe mais um, em ninho de Manon sempre há lugar para
filhotes - seus e de outros pássaros da família dos Estrildinos. Diamante Gold,
Diamante Sparrow e Bavette, por exemplo, são espécies que por uma razão ou outra
acabam não se reproduzindo em cativeiro. Quando muito, a maioria chega a botar
ovos que estariam perdidos, não fosse a eficiência do nosso amigo (veja box).
Amigável, o Manon deixa bem claro que a coisa mais importante em sua vida é a
reprodução. É uma espécie terrivelmente prolífera, bem no estilo "família de coelho
ou rato", que procria o ano inteiro - fazendo uma pausa apenas na época de muda
de penas, que ocorre em geral no período de fevereiro a maio. Essa é uma das razões
pelas quais os criadores de aves exóticas não abrem mão de seus Manons, tão importantes
na hora de cumprir o ciclo da reprodução.
Para começar a criação, o primeiro passo é separar os casais. Como o Manon não
apresenta dimorfismo sexual (diferenças físicas entre macho e fêmea), o ideal
é deixar vários exemplares adultos ( com 4 ou 5 meses) juntos em uma gaiola comunitária.
O primeiro que começar a cantar, emitindo um trinado curto - algo como tch-thc-tch
abrindo levemente as asas e eriçando as penas da garganta e peito, provavelmente
é um macho e deve ser posto numa gaiola à parte. Para diferenciá-lo, o criador
pode usar um anel de metal preso a uma das patas ou identificá-lo pelas marcações
coloridas.
CASAL GAY
A partir daí, introduza um
a um os outros exemplares, deixando que se ambientem por uns 20 minutos ou meia
hora. Os que começarem a cantar, a exemplo do macho separado, também são machos.
Os que permanecerem quietos são as fêmeas. O método, infelizmente, não é cem por
cento garantido, pois o Manon pode parear homossexualmente: dois machos chegam
a construir um ninho e chocar os ovos de outros pássaros que forem colocados lá.
O único senão ao instinto familiar do Manon é sua conduta de viveiro. Alguns criadores
afirmam que não raro vários casais resolvem dormir num mesmo ninho (devido a sua
queda por viver em bandos), podendo escolher um onde já existem filhotes. Nesse
caso, ainda que involuntariamente, podem acabar sufocando a ninhada ou quebrando
ovos. Para evitar isso, aconselha-se colocar dois ou três casais de Manon junto
a outros casais de espécies diferentes, controlando assim sua população. É bom
lembrar que essa prática também pode incorrer em outro problema: sendo uma ave
com tanta facilidade para cruzar, pode acontecer de um Manon acasalar-se com um
membro de espécie diferente, gerando filhotes híbridos. Isso aconteceria, por
exemplo, com um Diamante Sparrow, gerando "pimpolhos" até muito bonitos.
PARA QUEM QUER CRIAR
Gaiola:
Extremamente adaptável ao cativeiro, o Manon procria até em gaiolas pequenas (40
x30 x 30 cm). Basta então introduzir um ninho, que é uma caixa de madeira (cerca
de 15 x 10 x 10 cm) com um furo na frente. Se o criador quiser, pode ajudar o
feliz casal deixando à mão pedaços de 20 a 25cm de capim barba-de-bode - com o
qual eles enfeitarão o ninho.
Alimentação: O Manon é um pássaro granívoro, por isso deve
ser alimentado com uma mistura de sementes (alpiste, senha, painço), verdura (almeirão
e chicória), e a famosa farinhada de canário, especialmente na época de reprodução.
Para completar, um pote de areia ou pedra para o fornecimento de cálcio e sais
minerais para esta ave, ou então, juntar cascas de ovo de galinha, levar ao forno
(para esterilizar contra possíveis micróbios) e moer, pondo tudo numa tigelinha
dentro da gaiola.
Cuidados essenciais: A água do bebedouro deve ser trocada
diariamente. E como o Manon adora tomar banho, o criador pode colocar na gaiola
uma pequena banheira para que ele possa se divertir, tendo o cuidado de trocar
igualmente essa água todos os dias. A água, nesse caso, também ajuda a manter
a umidade necessária para que os ovos choquem. Só não é bom manter a banheira
com filhotes no ninho, pois um deles pode cair e morrer afogado. Da mesma forma,
a gaiola e o poleiro devem estar bem limpos. A bandeja precisa ser limpa com intervalos
de um dia e o poleiro uma vez por semana (colocando-se, inclusive, um pouco de
inseticida SBP ou querosene no corte que fica preso à gaiola, evitando assim a
proliferação de piolhos).
Reprodução: Feita a separação dos casais e construído o ninho,
a fêmea do Manon passa por um período de incubação que varia de 13 a 18 dias,
ao final do qual chega a botar até 8 ovos. Ela passa a contar também com a participação
do macho para chocar os ovos. Nascendo os filhotes, convém reforçar a alimentação
com a farinhada de canário. Ao término de 45 dias em média, os filhotes estão
prontos para se alimentarem sozinhos e com isso devem ser separados dos pais.
Inicia-se todo o processo novamente, contando desta vez com outros exemplares.
Trocando os ovos: Em geral, os criadores mais experientes
mantêm uma média de 5 casais de Manon para cada casal de exóticos (Diamante Gold,
Diamante Sparrow, Bavette), aumentado a probabilidade de coincidência entre os
períodos de reprodução de uma espécie e outra. O processo todo acontece da seguinte
forma: coincidindo a postura de ovos do casal de exóticos e de um dos casais de
Manon, substitui-se os ovos do Manon pelos da outra espécie. Graças a seu instinto,
papai e mamãe Manon chocarão os ovos alienígenas como se fossem seus, sem descuidar
dos filhotes durante todo o período de alimentação até chegarem à fase adulta.
Convém, entretanto, dar uma chance aos pais verdadeiros de demonstrar sua paternidade:
é sempre bom esperar que o casal exótico choque seus ovos por alguns dias, para
que conserve um comportamento mais próximo da natureza. Se isso não ocorrer, então
são transferidos para o ninho dos Manons, que como sempre, fazem o serviço sem
exigir remuneração.
Reportagem: Soraia Yoshida
Foto: Rolando Arual Freitas Prop: Loja Zôo-lógico