CANÁRIO DE CANTO: DELICADO PRAZER
Essa variedade de Canário dá um show com o som do seu canto limpo e rico em modulações.

Os gorgeios maravilhosos dos canários chegam ao máximo da perfeição com o Canário de Canto, o mais hábil e requintado da espécie. São oito variações sonoras com o bico fechado. Uma sofisticação!

A trajetória de sucesso da espécie começou há cerca de 500 anos, quando seu ancestral, o Serinus canarius, encantou a Europa trazido por navegadores que o descobriram nas Ilhas Canárias, da Espanha. Após 5 séculos de criação, evoluiu a ponto de se tornar uma ave de estimação de grande popularidade. Ganhou também atrativos adicionais graças á fixação de mutações e ao aprimoramento genético, com variedades em cada uma das três qualidades mais valorizadas nos pássaros: canto, cores e porte. Assim, além do melodioso Canário de Canto, existem o Canário de Cor, que se destaca pela pureza da cor - são 360 catalogadas - , e o Canário de Porte, de vários tamanhos e com plumagens especiais, divididas em 25 raças oficiais.

 

CANTO ROLADO

Por volta de 1700, próximo às montanhas de Harz no coração da Alemanha, foram observados alguns canários que cantavam de forma diferente, com um som "rolado", exclusivo, produzido com o bico fechado. A novidade conquistou apreciadores por todo o mundo e tornou-se conhecida como Roller (rolador, em alemão). Entre os Canários de Canto, é o que canta com um tom mais suave, tanto nos agudos como nos graves. Há mais duas variedades ainda não criadas no Brasil: a Timbrado Espanhol, com canto mais estridente (som "campainha"), e a belga Malinois, de som intermediário.

O canto rolado é exclusivo do Roller. Quanto mais grave o tom, maior o seu valor. É possível perceber oito sutis variações nas suas execuções vocais, adquiridas por herança genética. Essas variações são chamadas de tours (jeitos), denominadas de forma bastante sugestiva: as tours básicas são a Hohlrollen (rolado oco), Knorren (baixo), Hohlklingeln (campainha oca) e Pfeifen (flauta) e as demais, ditas "de adorno", são a Wassertouren (jeito de água), Schockeln (a tradução que mais se assemelha é "gargalhada"), Glucken (galinha choca) e Klingelstouren (campainhas). Em geral, o Roller intercala todas as tours básicas com uma ou duas de adorno, estilo que pode ser aprimorado com a prática do canto. Por isso, o treino é importante para os exemplares que participam de competições. Algumas combinações produzem exibições de alto valor, como as Wassertouren mescladas com as Hohlrollen ou as Knorren. As tours de adorno misturadas sem critério reduzem o valor do canto. O que diferencia uma tour da outra é o som desdobrado em consoantes, que as identificam, e vogais que lhe dão o valor. As vogais valorizadas são a "u", "o" e "ü" (som de "u" fechado, como na língua francesa). As demais são de pouca expressão ou até mesmo depreciativas.

Além da cor verde, herdada do ancestral Serinus, o Canário de Canto ganhou novas colorações com o correr do tempo: verde pintado de amarelo; amarelo; branco e cinza. Até uma variedade de topete apareceu.

O tom do canto muda um pouco dependendo da cor do Canário. Por isso, nos concursos, o verde, o amarelo e o pintado são julgados em um grupo. O branco, o cinza e o de topete em outro; às vezes, o de topete em separado.

Há quem denomine de Roller os Canários de Porte ou de Cor, mas é incorreto - o canto "rolado" é característica exclusiva do Canário de Canto.

TIPOS DE CANTOS

O canto dos Rollers tem oito variações identificadas pelo som das consoantes vogais que o compõem.

  • Hohlorren (rolado oco) - Consoante: "r" branco - dá o caráter rolante. Vogais "u", "o" e "u".
  • Knorren(baixo) - Consoante inicial ( no início da tour): - "k" ou "g". Consoante: "rr". Vogais: "o" e "u".
  • Hohlklingeln(campainha oca) - Consoante: "l". Vogais: "ü", "o" e "u".
  • Pfeifen (flauta) - Consoante: "d". Vogais: "i", "ü", "o", "u" e "au".
  • Wassertouren (tour de água) - Consoante dupla: "bl" ou "wl" Vogais: "ü", "o" e "u".
  • Schockeln (gargalhada) - Consoante: "h" (expirado e suave). Vogais: "a", "ü", "o" e "u".
  • Glucken (galinha choca) - Consoantes iniciais: "gl" e "kl". Consoantes finais: "c", "k" e "ck". Vogais: "ü", "o" e "u".
  • Klingeltouren(campainhas) - Consoantes: "l" e "r". vogal: "i".

QUARTETOS

Os concursos de canto são uma curiosidade à parte que agita o mês de junho no Brasil. Dois meses antes, o Roller começa a ser treinado. Deve aprender a se apresentar a qualquer hora e na presença de pequeno ou grande público. Os melhores cantores são escolhidos a partir de quartetos ou duplas, essas últimas criadas recentemente. A sala de julgamento é pequena, com boa acústica, 22°C de temperatura e iluminada artificialmente. Cada pássaro se apresenta em uma gaiolinha individual, aberta meia hora antes para ele comer e beber. Se um mais afoito cantar antes da hora, é interrompido. Para o julgamento, quatro ou duas gaiolas são empilhadas sobre uma mesa. A apresentação dura 30 minutos, observada a um metro de distância, aproximadamente, pelo juiz. O silêncio deve ser tal que somente os Rollers sejam ouvidos. Os juízes, que estudam a fundo a chamada Teoria de Canto Clássico, avaliam o repertório; a intensidade do canto; a perfeição da apresentação; a emissão do som ascendente ou descendente, lenta ou rápida; a transição de uma tour para outra e a pureza do som nas tours básicas. Consideram também os pontos negativos que são chamados de "tours de depreciação". Os prêmios vão para o melhor quarteto ou dupla e para o melhor cantos.

Os machos que já terminaram a muda, nascidos de agosto a dezembro, são colocados na gaiolinhas individuais de canto. Elas são postas em estantes, uma ao lado da outra, em um quarto na penumbra, situação que mais estimula o canto. Como cortina, usa-se um tecido de algodão opaco, de cor escura, não muito grossa, para não impedir a ventilação. Após a adaptação, período de uma semana a dez dias, uma divisória de madeira entre as gaiolas evita que o macho veja outro e desenvolva cantos de briga, sem valor para os concursos. Mantidos na penumbra, os canários cantam e exercitam os quatro tours básicas espontâneamente. Quando estiverem cantando de maneira vigorosa e constante, o próximo passo é fazê-los cantar somente se quisermos. Mais uma cortina opaca é usada, dessa vez na estante, para o canário ficar no escuro e parar de cantar quando for fechada. Abre-se a cortina diversas vezes ao dia durante 30 minutos. Ao verem a luminosidade, os pássaros exibem todo o seu canto. É uma fase preciosa de acompanhamento do progresso dos "alunos", quando se aprende também a perceber as variações do canto do Roller e a acostumar o ouvido a reconhecer as tours. Com o treino, o Roller tende a definir uma seqüência da preferência dele. Esse é o momento de começar a empilhar as gaiolas sobre uma mesa para simular o julgamento dos quartetos ou duplas. O exercício é feito diversas vezes ao dia, por uma hora, até a véspera do concurso.

A cada 15 dias, os canários devem ser postos em uma gaiola "voadeira", durante três horas, para exercício físico e banho. A oportunidade é aproveitada para a limpeza das gaiolinhas e da estante. Atenção com os machos que estão na voadeira: os briguentos devem ser separados dos demais.

O canto é determinado pela genética e aprimorado pelo exercício. Alguns livros e outros criadores sugerem influenciá-lo com o canto de outros Rollers e indicam o uso de pássaros-mestres e discos para esse fim. Entretanto, a maioria dos criadores considera esse método pouco ético por desvirtuar o canto característico de cada ave.

Para quem tem um casal em casa, há algumas dicas para estimular o macho. Ele poderá cantar na maior parte do dia, o ano todo, se o ambiente for estimulante ao canto.

A motivação é maior quando o ambiente está iluminado e há uma fêmea por perto, cuja presença ele pressinta ou veja. Através do jogo da claridade e da escuridão, é possível concentrar o canto em determinados períodos de tempo e fazê-lo mais vibrante. No escuro, cantará pouco e baixo. Para ouvi-lo cantar entusiasticamente, basta acender a luz. Na época da procriação, a tendência é cantar mais. Porém, se for colocado na mesma gaiola da fêmea, o seu canto diminuirá bastante. Se você tiver mais de um macho, o ideal é que um não veja o outro, para não desenvolverem o canto de guerra, que é pouco atrativo. Quando um não vê o outro, basta um cantar para que os demais se sintam estimulados a fazê-lo.

O MELHOR

Para ter um bom Canário de Canto, adote alguns cuidados básicos. Ao comprar, procure um criador indicado por um Clube Ornitológico. Escolha o exemplar de canto mais agradável e melodioso segundo o seu gosto (lembre-se: só o macho canta). Prefira adquiri-lo com pelo menos 3 meses, quando começa a cantar. Atingirá o seu ápice com 1 ano de idade. A fêmea pode ser comprada com qualquer idade - com 1 ano está apta à reprodução.

A compra pode ser efetuada nos canaris, em lojas especializadas e em exposições, onde se pode assistir aos concursos. É normal o comprador ouvir o canto antes de fechar negócio, seja de alguns canários específicos como em grupo.

Apesar das fêmeas não cantarem, não descuide de uma boa escolha. Devem ser saudáveis, alegres e um pouco mais gordinhas que os machos.

O canário vive em média 5 anos. Para mantê-lo saudável, além da alimentação fresca, variada e livre de agrotóxicos, ponha a gaiola em um lugar que receba os primeiros raios de sol da manhã e sem corrente de ar. Não dispense os banhos matinais de sol e de água. Fazer uma inspeção diária nas aves é uma boa medida, pois muitas doenças são facilmente curáveis se identificadas no início. O banho é um excelente indicador de saúde: pássaros doentes nunca tomam banho.

As doenças mais comuns são as respiratórias e as de origem intestinal, entre elas a asma dos canários, causada por ácaros e diarréias por motivos variados. Ocorre também a bouba, bola nas regiões sem penas, ocasionada por vírus transmitido por picada de mosquito (gênero Cullex). Piolhos de aves também podem infestar a criação.

Os criadores identificam seus canários com anilhas fornecidas pela entidade principal à qual o clube é filiado. Contêm o nome do clube de filiação do criador, o número do canário e do criador e o ano de criação. Graças a esse sistema, pode-se saber quais são os ancestrais de cada ave.

A reprodução dos canários, em geral, vai de julho a dezembro. Coloque um ninho aberto (vendido nas lojas) na gaiola do casal e deixe alguns fios de barbante ou estopa para que o casal arrume. A fêmea põe de três a quatro ovos por postura, chocados por 13 dias. Uma verificação diária do ninho, feita com cuidado, é o suficiente. Geralmente, a mãe cuida bem dos filhotes. Se for perturbada pode abandonar o choco ou deixar de tratá-los. Após 1 mês de vida, os filhotes são separados dos pais e colocados em gaiolas comuns. Aos 45 dias, podem ir para as gaiolas "voadeiras" para fazer exercício e aos 3 meses para a gaiola definitiva. O casal continua na gaiola até dezembro ou antes, se você preferir interromper a reprodução. Nesse caso, o macho logo volta a cantar com vigor.

CUIDADOS E INSTALAÇÕES

Gaiola para casal (e individual): de metal G2 com 45 centímetros de comprimento por 32 de largura e 40 de altura. Ou do tipo argentina com 60 centímetros por 35 por 40.
Gaiola "voadeira": 70 centímetros de comprimento por 30 de largura e 30 de altura, com dois poleiros. Gaiola de canto e concurso: com 22 centímetros de comprimento por 15 de largura e 17 de altura, com dois poleiros nas extremidades para exercícios.
Higiente das gaiolas: as gaiolas de casal, individual e voadeira devem ter piso removível para facilitar a limpeza, bebedouro, comedouro, recipiente para a farinhada, banheira com 3 centímetros de profundidade, cheia de água, e dois poleiros com 1 a 1,5 centímetros de diâmetros. Limpeza é fundamental para prevenir doenças. Forre o fundo (bandeja) da gaiola com papel-jornal e troque-o diariamente. Retire a banheira por volta das 11 horas para evitar banhos à tarde e para que a água suja não seja bebida. Lave o comedouro, bebedouro e a parte de baixo da gaiola duas vezes por semana.
Criadouro: é composto por uma sala com janela para a reprodução e outra para o exercício do canto, de preferência em local que receba o sol da manhã, e sossegado, para que as aves na época da reprodução tenham paz e luz para criar seus filhotes. A ventilação deve ser boa, mas sem corrente de ar. O criadouro deve ter voadeiras, além das gaiolas tradicionais. Pelo menos duas vezes por ano, o criadouro deve passar por uma limpeza geral - antes e depois da temporada de reprodução.
Alimentação normal: para manter a elasticidade do órgão que modula a voz (a seringe, também conhecida como laringe inferior), ofereça uma mistura de 50% de couza (uma semente oleaginosa) e mais 30% de alpiste, 10% de níger, 7% de aveia e 3% de linhaça. Uma colher (sobremesa) diária desta mistura é suficiente para cada ave. Ofereça também verduras como a couve, escarola, almeirão ou chicória (nunca alface que provoca diarréia) e frutas como a maçã e a laranja. E por último, uma colher (café), diariamente, com a massa de ovo ou farinhada. A receita é : 1 gema de ovo cozido amassada e passada numa peneira fina, 1 cenoura pequena ralada bem fina, 1 colher de chá de mel, 50% de farinha de rosca, 50% de complexo vitamínico Meritene ou de Canarina (produto para canários da Purina); há também alguns produtos importados na mesma linha. A farinhada precisa ser trocada todos os dias, pois fermenta e pode ser prejudicial. Outro ponto importante na alimentação, que não deve faltar, é a areia lavada. O canário, sendo um granívoro, precisa dela para digerir bem as sementes. A areia deve ser colocada em uma vasilha para evitar que os pássaros a sujem, na seguinte mistura: areia (60%), casa de ovo (20%) e farinha de ostra (15%), bem moídas e cálcio fosfatado (5%).
Alimentação dos filhotes: após o nascimento dos filhotes, a farinhada deve ser dada 2 a 3 vezes ao dia, para os pais alimentarem a ninhada.

PARA SABER MAIS

Livros:

  1. Coleção Tratado de Canaricultura de Ademir Eugenio Lopes, 1979, Editora Nobel, São Paulo-SP. O assunto está espalhado em vários volumes.
  2. A criação de Canários e seus cuidados, de Ademir Eugenio Lopes, 1986, Editora Nobel, São Paulo-SP.
  3. Der Hazer Roller - Edição da D.K.B. (Federação Alemã de Criadores de Canários), 1986, Mulheim, Alemanha.
  4. Sucesso na Criação de Pássaros, de Oberland de Oliveira Coelho, 1980, Editora Nobel, São Paulo-SP.
  5. El Canario, Canaricultura, de Miguel del Pino Luengo, 1983, Editorial Aedos, Barcelona, Espanha.

Apostilas: as associações e clubes publicam apostilas e boletins sobre o assunto.

Associações:

  1. Federação Ornitológica Brasileira (FOB),
  2. Roller Clube de São Paulo (exclusivamente canto),
  3. Real clube de Canários de Canto

 

Agradecemos à colaboração dos criadores citados, inclusive pela revisão desse texto.
Reportagem: Ana Martins. Texto: Marcos Pennacchi

Foto: Fernando Torres de Andrade
Prop.: Armando Rodrigues

 

 
 
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