AS SERPENTES ESTÃO COM TUDO
Surpreenda-se com o universo que existe e cresce para as
serpentes de estimação.
Ter
uma serpente em casa como bicho de estimação pode parecer bastante
estranho para a maioria das pessoas. Mas o fato é que cada vez mais esses
antiqüíssimos répteis, cuja evolução tem origem
nos lagartos, invadem os lares de quem procura por uma companhia diferente. Nos
Estados Unidos, o convívio doméstico com serpentes pets - termo
americano que designa bicho de estimação - cresce a passos largos.
Há uma verdadeira indústria sendo movimentada em torno desse
mercado. Existem inúmeros pet shops especializados em répteis que
oferecem tudo e um pouco mais daquilo que é necessário para manter
uma serpente feliz. Além das próprias serpentes, encontram-se terrários
ideais com imensa variação de apetrechos decorativos, diversos
tipos de alimentação e complementos vitamínicos. Robrey
MacGuiness, proprietário de um desses paraísos para amantes de répteis,
atesta: "Só na Flórida há mais de vinte lojas onde se
pode achar um mundo de acessórios." No jornal publicitário
Pet Product News PSM, dos EUA, a quantidade de propagandas anunciando produtos
ligados ao setor surpreende aqueles que passam ao largo do sucesso desse hobby
emergente. Tem de tudo. Ratos congelados para o banquete da mascote. Vídeos
e livros didáticos que ensinam cuidados básicos sobre a alimentação,
a saúde, o manuseio e o tratamento. Novidades em acessórios específicos,
além dos próprios pets shops que divulgam os serviços de
importação e exportação das serpentes. Existem
revistas especializadas em répteis e em anfíbios. A maior delas, a
Reptiles, com periodicidade mensal, tem três anos de vida. Com uma tiragem
fantástica de 120 mil exemplares e cerca de 70 mil assinantes, as suas
aproximadamente 120 páginas reservam 40 exclusivas para as serpentes - ou
seja, um terço da publicação. Apresenta artigos variados.
Desde assuntos ligados à vida desses animais no habitat natural, aos
cuidados e a criação em cativeiro até ensaios fotográficos
dos répteis em seus países de origem e perfis de pessoas famosas
que optaram por esses exóticos rastejantes como companheiros, entre eles
a Madonna e o ator Danny De Vitto. A última página é
destinada aos leitores que contam curiosidades e histórias engraçadas
sobre o convívio com répteis de estimação, como
fugas do terrário e visitantes que levaram grandes sustos. Em entrevista
a Cães & Cia, o editor chefe da Reptiles, Phillip Samuelson, estimou
que 60% dos assinantes são proprietários de serpentes, comprovando
que apreciadores não faltam para aquecer esse mercado.
O supermundo das serpentes domésticas nos EUA vai
mais longe. Há clubes especializados em praticamente todos os Estados. São
coordenados por uma entidade principal, na Califórnia, a American
Federation of Herpetoculturist (Federação Americana dos
Culturistas de Répteis), que promove exposições anuais.
Phillip informou a Cães Cia, em julho, que no mês seguinte
ocorreria a exposição do ano de 1996, em Orlando, na Flórida.
As expectativas, segundo ele, eram de 15 mil visitantes e cerca de 400
expositores, que vendem e mostram os seus exemplares. "Não há
qualquer tipo de premiação como em exposições de cães
ou gatos, mas há quem conquiste, pela qualidade dos animais, o
reconhecimento do público e uma clientela fiel", diz. Os clubes
especializados se encarregam também de auxiliar os proprietários
de serpentes que pretendem se desfazer delas, encaminhando-as a alguma instituição
ou a pessoas interessadas.
No Brasil, o universo das serpentes como animais de estimação
não se compara ao americano, mas existe e é crescente. Apesar de
poucas, já há lojas que as vendem, assim como os equipamentos para
o terrário e a alimentação adequada. No momento a importação
de répteis está interrompida, mas há exemplares em algumas
lojas. Há também duas condições básicas para
a compra e a venda de serpentes no País. A primeira é que é
proibido criar espécies peçonhentas (aquelas que têm dentes
maiores e inoculadores de veneno na frente da arcada, chamadas popularmente de
venenosas), que oferecem risco ao homem. A segunda, válida para todos os
animais, impede a posse de espécies da nossa fauna, a menos que o Ibama a
autorize. Mas, a realidade é diferente. Grande parte das pessoas que
partilham o seu dia-a-dia com uma serpente por aqui, o faz com jibóias,
espécies nativas. Esse é o caso de Fernando Legacy. Admirador de
serpentes desde a infância e ex-estudante de biologia, tem um casal de jibóias
num terrário no jardim. Uma delas é tão mansa que a equipe
da reportagem de Cães Cia quase a pediu de presente. A serpente, com
cerca de 1,5m de comprimento rodou pacificamente de mão em mão,
sem mostrar o menor sinal de agressividade. Fernando explica: "Ela foi
acostumada desde pequena ao cativeiro e ao manuseio humano; a outra já
chegou mais velha, por isso não aprecia grandes intimidades." Esse é
sem dúvida um dos grandes segredos para os pretendentes a dono de
serpente: obtê-la bem jovem para que fique mais receptiva ao homem e não
o entenda como uma ameaça. "O melhor é adiquiri-las assim que
chegam ao Brasil", endossa o biólogo e proprietário da loja
de animais Bioterium, Marcus Buononato, que trabalhou 13 anos no Instituto
Butantã e importa serpentes. "A maioria vem com mais ou menos 30cm,
apenas um pouco maior do que nascem." A serpente deve ser pega com
movimentos suaves e lentos. Caso contrário, se assusta e pode dar um
bote. E tomar uns botes faz parte do hobby. Que já levou atesta:
praticamente não dói. "É como se fosse um espinho de
planta", garante Fernando. "Dói menos do que picada de abelha",
fala Marcus. É claro que eles se referem às mordidas das espécies
usadas para estimação, que não têm dentes maiores e
inoculadores na frente da arcada como as venenosas, que os cravam profundamente
na pele da vítima. O problema maior do bote é o susto que o dono
leva, podendo derrubar a serpente. E ela não pode cair, sob pena de
quebrar a coluna ou ter um ferimento grave nos órgãos internos. "A
musculatura das serpentes é muito elástica, mas não rígida
o suficiente na região ventral para protegê-la de um tombo",
afirma Marcus.
Quem adquire uma, dificilmente resiste à tentação
de sair com ela, pelo menos uma vez, para ir a algum lugar público, ainda
que seja andar até a esquina de casa. Há histórias engraçadas
nesse sentido. Marcelo Gonzaga, que trabalha com instalação e
manutenção de aquários e terrários, já teve várias
serpentes. Entre elas, duas cobras-cipós que levava para a escola. "Juntava
uma multidão", lembra. "A maioria das pessoas ficava com medo,
mas outras queriam pôr a mão e faziam mil perguntas." Mesmo
que pareça divertido, esse tipo de programa é totalmente
contra-indicado para a serpente. Ela fica tão assustada com o tumulto que
pode ter um estresse, adoecer e até acabar morrendo.
Um dos maiores desafios na criação é a
hora da refeição. Serpentes comem animais. E não é
qualquer um que lida naturalmente com isso. Marcus é testemunha. "Muita
gente desiste de comprar quando em começo a falar da alimentação."
Até o editor da revista Reptiles se rende a esse fato. "Adoro
serpentes, mas prefiro ter répteis vegetarianos, como alguns lagartos."
Mas para alegria dos - compreensivelmente - incapazes em fornecer animais vivos
para a mascote, os pet shops que atuam no setor dispõem de ratos
congelados. Esses até apresentam outras vantagens sobre os vivos. Por
exemplo, não há risco de morderem e machucarem a serpente, o que
muitas vezes ocorre. Tanto que quando o alimento é vivo não deve
ser dado longe da vista de alguém, para que o socorro, se necessário,
seja viável. Como o instinto de caçar está arraigado nas
serpentes, talvez se torne preciso sacudir o rato congelado com uma pinça
longa. Para aqueles que também se chocam com a refeição
congelada, os americanos inventaram a solução ideal: uma espécie
de salsicha, feito à base de fígado e balanceada de acordo com as
necessidades nutricionais das serpentes. No entanto, o produto precisa ser
importado sob encomenda, pois os pet shops nacionais ainda não o
trouxeram. A quantidade de comida varia de acordo com a espécie e o
tamanho do exemplar (veja quadro Serpentes de Estimação). Não
se aconselha manusear a serpente enquanto faz a digestão, pois além
de fazer mal a ela, há chances de estar mais agressiva. A porção
semanal pode ser dada todo num dia só ou em intervalos regulares. Depende
do proprietário. Marcus explica: se a serpente é muito manuseada é
melhor que coma pouco e com mais freqüência, assim a digestão é
mais rápida e não há risco de interrompê-la. Caso
contrário, é melhor dar tudo num dia só, pois é
assim que ela faz na natureza para reservar as suas energias.
Outro cuidado essencial é na hora da escolha da espécie.
Marcus alerta para uma espécie argentina, caracterizada pelo focinho
arrebitado e conhecida como "cobra cipó argentina", que tem
sido contrabandeada e oferece risco ao homem. Opte pelas serpentes consagradas
como de estimação (as abordadas nesta reportagem são as
mais populares nos EUA, inclusive a jibóia que também é
vendida lá) ou se informe com algum biólogo, caso desconfie da espécie
ou de que a estiver oferecendo.
MEDO ANTIGO
Ter uma serpente exige antes de mais nada um requisito
essencial por parte do candidato a proprietário. Ele deve necessariamente
pertencer à minoria da população que não nutre algum
sentimento de repulsa em relação a tais animais, seja medo, nojo
ou aflição. Não é de estranhar que esse fator, ainda
que pouco a pouco vá amenizando a sua força, seja o maior obstáculo
para a popularização deles como pets. Um dos proprietários
de uma das grandes lojas especializadas em répteis em Nova York, nos EUA,
Dan Ferrena, em entrevista ao jornal Pet Products PSM, traçou o perfil
de quem opta por esse animal. "O nosso cliente é aquele que deixou
no passado todos os medos e mitos que envolvem as serpentes", comenta. "Ainda
há muita gente que as considera demoníacas ou coisas assim. Esse é
sem dúvida o nosso maior complicador, mas que pode ser sanado com um mínimo
de conhecimento sobre a vida desses animais." Outro dono de um pet shop
americano, Mike Hoffer, que trabalha com a venda de serpentes há mais de
vinte anos analisa que o crescimento da procura por esses répteis vem em
grande parte da maior "educação" sobre eles que vem
ocorrendo nos últimos tempos. "A aceitação cada vez
maior das serpentes, assim como dos lagartos e dos anfíbios é o
resultado dos vários programas educativos da televisão, que são
veiculados com freqüência e nos quais se esclarecem os hábitos
e a importância deles no ambiente", fala. "Isso melhora a reputação
desse bichos e aumenta a sua comercialização."
É bom mesmo que tais programas garantam espaço,
pois a cultura ao medo de serpentes nasceu junto com a humanidade. O que não
faltam são lendas para difamá-las. Sonhar com uma, por exemplo, é
tido na crença popular como sinal de traição. Sem falar nos
incontáveis mitos e superstições que as acompanham ao longo
das civilizações. Na história da Criação, Adão
e Eva foram seduzidos pela serpente, que virou sinônimo do demônio.
Foram também muito associadas a causas de doenças. Alguns povos
antigos acreditavam que as pessoas enfermas estavam com o "espírito
da serpente incorporado". Tanta fantasia tem lá a sua razão
de ser. Afinal, existem serpentes venenosas que desde sempre representaram uma
ameaça em forma de armadilha ao homem. Camufladas na mata, podem pegar
qualquer um de surpresa. Como a distinção entre espécies
perigosas e não perigosas é coisa de especialista, o medo
generalizou-se para toda e qualquer serpente. Mas não é bem assim.
Só para dar uma idéia, das aproximadamente 2700 espécies
existentes no mundo, cerca de duas mil não são consideradas
venenosas. Ou seja, por volta de 74% não oferecem risco ao homem. Tanto
que parte delas hoje virou pet. Vale registrar, que as serpentes sempre
colaboram para o planeta não estar insuportavelmente infestado de ratos.
Esses sim, proliferadores de doenças extremamente perigosas ao homem.
AMBIENTE IDEAL
O ambiente ideal para uma serpente é aquele que
melhor reproduz as condições do habitat natural. Como são
animais de sangue frio e imprescindível a instalação de uma
fonte de calor. Há várias opções no mercado. As mais
comuns são as rochas aquecidas, ou seja aquecedores disfarçados de
pedra, cuja vantagem sobre outros equipamentos de gênero é apenas
de ordem estética. A temperatura do terrário não deve ser
inferior a 20 graus, sob pena de colocar a saúde da serpente em jogo. Use
um termostato para controlar isso. A fonte de calor não é
desligada nunca. De preferência, é colocada em uma das extremidades
do terrário. Na outra, para contrabalançar a área quente, é
preciso uma fonte de umidade. Basta colocar uma vasilha de água, feita de
algum material, como plástico ou cerâmica. Como existem serpentes
originárias de regiões mais ou menos úmidas, o grau de
umidade relativa do ar necessário varia em função da espécie
(veja quadro Serpentes de Estimação), e deve ser adequado,
aumentando ou diminuindo a quantidade de água. Daí a importância
de um higrômetro, aparelho medidor de umidade, encontrado em pet shops. A
iluminação deve ser semelhante à luz solar, com emissão
de raios UV-A e UV-B. O ideal é equipar o terrário com lâmpadas
fluorescentes, que oferecem ambos os raios. As incandescentes, também
encontradas no mercado, só emitem os UV-A . À noite, devem ser
desligadas. Serpentes gostam de ficar escondidas, principalmente as de hábitos
noturnos. Não deixe de construir um abrigo e de colocá-lo próximo
à fonte de calor. Pode ser feito com cascas de eucaliptos, mas existem
cavernas aquecidas específicas para isso. A forração do
terrário varia em função do gosto do proprietário.
Jornal, pedrinhas ou areia, tudo vale. Só não se usa serragem. A
serpente ao se alimentar pode engolir pedaços pontiagudos, machucando as
mucosas internas. Marcus Buononato indica uma regra prática para
determinar as medidas ideais do terrário em função do
tamanho da serpente adulta. A largura e altura devem ser iguais à metade
dela. O comprimento nunca deve ser inferior ao da espécie. O mais
recomendável é que seja 50% maior. "Com essas medidas, é
possível abrigar até um casal", fala. O mais comum é
que o terrário seja um aquário, do tipo usado para peixes. A tampa
é de tela resistente, para permitir a respiração. Para
serpentes muito grandes, aquelas que ultrapassam os dois metros, o melhor é
optar por um alambrado, como um viveiro para pássaros. Caso fique ao ar
livre, não é necessária a iluminação
artificial. Cubra parte do teto com algum material transparente como telha plástica
ou de fibra de vidro. A outra, deixe apenas com a tela. Assim, existe a opção
de a serpente tomar chuva ou banhos de sol. Seja um "aquário"
ou um "viveiro", não esqueça de colocar uma trava no
local por onde é aberto, para evitar fugas. A ornamentação
fica a critério de cada um. Pode-se usar plantas de interiores ou galhos
secos, que são úteis por cumprir três funções.
Além de decorar o ambiente, permitem que a serpente se exercite e se
esfregue para auxiliar a troca de pele, que ocorre várias vezes por ano.
ACASALANDO
Conforme explica o biólogo e pesquisador do Instituto
Butantan, Giuseppe Puorto, não é possível identificar
visualmente o sexo das serpentes tidas como não venenosas. É
preciso realizar um exame de identificação do sexo (sexagem). Os
pet shops que trabalham com acessórios para répteis costumam ter o
equipamento para fazê-lo ou mesmo para vender, ensinando ao comprador como
usá-lo. Ainda segundo Giuseppe, a reprodução em cativeiro não
é difícil, desde que se sigam as condições básicas
de temperatura, umidade, alimentação e espaço do terrário.
As serpentes atingem a maturidade sexual entre os dois e três anos. O órgão
sexual do macho, chamado de hemipênis, é interno e composto por
duas estruturas bifurcadas situadas, cada uma, em uma das laterais da parte
ventral da cauda. Na hora da cópula, o macho se coloca paralelamente à
fêmea, se enrola nela, e introduz uma das estruturas na região da
cloaca. Aí, ele vibra o corpo todo e bombeia o esperma. O acasalamento
costuma durar de 6 a 12 horas, mas às vezes ultrapassa um dia inteiro. A época
da reprodução é de agosto a outubro. O tempo de gestação
varia entre as serpentes. Genericamente, demora de dois a seis meses (veja
quadro Serpentes de Estimação). Até algum tempo atrás,
as serpentes eram classificadas em três grupos com referência ao
tipo de gravidez: as ovovivíparas (a fêmea bota os ovos com os
filhotes já inteiramente desenvolvidos dentro deles); as ovíparas
(os ovos são colocados sem que os filhotes estejam formados) e as vivíparas
(não há ovos; nascem os próprios filhotes). Hoje, conforme
elucidaram os herpetólogos Giuseppe e Silvia Regina Cardoso discutem-se
os conceitos de ovovivípara e vivípara no meio científico,
sendo que há quem considere um ou outro como incorreto. O número
de ovos ou filhotes também depende da espécie. A mãe
serpente não cuida da prole. Ela já nasce sabendo caçar e
sobreviver sozinha. Não há muitos cuidados especiais com a
ninhada. Coloque-a separadamente dos adultos. Os filhotes, de preferência,
devem ter cada um ou dois uma "casa própria". A convivência
grupal é mais complicada. São vários os motivos. O primeiro
é que após uns três meses o tamanho do terrário que
foi projetado para um máximo de dois habitantes ficará
insuficiente. O segundo é que na disputa de alimento, os mais lentos
podem sair prejudicados. Além disso, como exemplifica Marcus Buononato,
caso dois filhotes tentem comer o mesmo alimento, um pode acabar mordendo o
outro. A última razão para separá-los é a espécie.
Se for um ofiófaga, isto é, aquela que aprecia comer outras
serpentes, como a King Snake, há um risco óbvio, caso alguma sinta
fome.
SERPENTES DE ESTIMAÇÃO
As espécies mais populares usadas para estimação
pertencem a duas das onze famílias nas quais as serpentes são
divididas: a dos Boídeos e a dos Colubrídeos.
BOÍDEOS
É a família mais primitiva de serpentes, cujos
fósseis indicam sua existência no período cretáceo, há
cerca de 146 milhões de anos. Apresentam até hoje vestígios
de membros posteriores, chamados de unhas ou esporões na linguagem
popular, situados ao lado da cloaca. Comprendem cerca de 95 espécies,
entre elas as ditas serpentes gigantes, as maiores do mundo. Todas apresentam a
dentição áglifa. Isto é, ausência de dentes
maiores (cientificamente denominadas de presa de veneno ou dentes
diferenciados). Por isso não são consideradas peçonhentas.
São serpentes pouco ativas durante o dia. A gravidez dura entre 5 e 6
meses.
COLUBRÍDEOS
É a família mais numerosa entre as 11
existentes. Abrange mais de 2 mil espécies no mundo. Ou seja mais de 74%
do total estimado de 2700. Apresentam dentição áglifa, como
nos Boídeos, ou opistoglifa. Isto é, o dente maior e inoculador
existe, mas é situado bem no fundo do maxilar, o que dificulta a inoculação
do veneno. São classificadas como não peçonhentas. A
gravidez perdura entre dois e quatro meses.
PYTHON BURMESE
Ela é a maior das serpentes usadas como pets. Há
exemplares que ultrapassam 8 metros, ainda que isso leve mais de dez anos.
Nascem com 30 ou 35 centímetros. No segundo ano, já atingem a
marca dos 1,80 metros. Até alguns anos atrás ela ocupava o lugar
da Ball na preferência dos americanos. Pelo tamanho avantajado e baixíssima
agressividade, é muito usada em shows e espetáculos. Encontrada
nas florestas indianas, é de hábitos crepusculares. Devido ao
tamanho gigantesco, é melhor que viva em terrário externo. A
umidade relativa deve girar em torno dos 80%. É aglifa e ovípara,
botando até 30 ovos.
Alimentação aproximada por semana:
- filhote: 1 camundongo adulto
- 1ano: 2 ratos adultos
- após 2 anos: 9 ratos ou 3 coelhos.
BALL PYTHON AFRICANA
Essa serpente, segundo Robrey Macguiness, dono de um dos
maiores pet shops especializados em répteis nos EUA, é a mais
vendida como bicho de estimação por lá. Tranqüila,
disputa com a Burmese, o título de mais receptiva ao manejo. No entanto,
conforme disseram os entrevistados americanos, é também a que mais
se estressa em cativeiro. Por isso é bom ficar de olho, pois ela pode
recusar comida por meses e acabar doente. Originária de países do
Centro-Oeste africano, tem a característica de se enrolar e colocar a
cabeça no centro do corpo, como se fosse uma bola (veja a foto). Daí
o nome "ball", que em inglês é bola. Nasce com cerca de
20cm. Ao final do primeiro ano já mede por volta de 65cm. O comprimento máximo
é entre 1,10 e 1,20m, o que a torna uma das menores Pythons das quais se
tem notícia. Apresenta dentição áglifa. É ovípara
e coloca de 4 a 7 ovos. A umidade relativa para o seu terrário deve ser
próxima aos 60%.
Alimentação aproximada por semana:
- filhote: 1 camundongo jovem
- 1 ano: 2 camundongos adultos
- após 2 anos: 2 ratos adultos.
JIBÓIA
Existem duas subespécies de jibóia. São
as mais comuns como serpentes pet no Brasil. Por existirem em nossa fauna, é
proibido tê-las em cativeiro, a menos que se consiga autorização
do Ibama. Entre as serpentes abordadas nessa reportagem é a segunda de
tamanho maior, só perde para a Burmese. No Brasil, também recebe o
segundo lugar em gigantismo, entre as cerca de 230 espécies que temos.
Nasce com cerca de 30cm. Alcança 90 no primeiro ano e pode ultrapassar os
três metros. Acostuma-se facilmente ao manuseio. Por isso, a exemplo da
Burmese é bastante solicitada para shows. A subespécie que habita
o Sul e Sudeste prefere umidade ao redor dos 60%. Já a amazônica
requer umidade de 80%. Alguns biólogos as consideram vivíparas e
outros, ovovivíparas. Podem ter de 30 a 60 filhotes, embora menos da
metade atinja a maturidade sexual. A dentição é áglifa.
Alimentação aproximada por semana:
- filhote: 1 camundongo jovem
- 1 ano: 2 ratos adultos
- após 2 anos: 3 ratos ou 1 coelho.
King Snake ou Milk Snake
Essas são espécies de hábitos ofiófagos,
ou seja, que comem também outras serpentes. São as mais ativas
entre as serpentes abordadas nessa reportagem. Daí o editor chefe da
revista Reptiles, Phillip Samuelson, dizer que são indicadas para quem
quer uma serpente que se movimente bastante, em vez de ficar paradona. Englobam
cerca de sete espécies. Geralmente possuem colorido brilhante. Algumas
com anéis negros, brancos, vermelhos ou amarelos, lembrando as famosas
corais. Conhecidas também como North American King Snakes, são
achadas desde o Sudeste do Canadá até o Sul do México. São
as que mais estranham a manipulação humana. Daí a maior
importância de acostumá-las com isso desde pequenas. Nascem com
cerca de 25cm. Com um ano beiram os 80 e quando adultas podem chegar perto de
dois metros. São ovíparas. Colocam de 10 a 30 ovos. A dentição
é opistoglifa, e a umidade ideal é de 70%.
Alimentação aproximada por semana:
- filhote: 1 camundongo recém-nascido
- um ano: 2 camundongos jovens
- após dois anos: 3 camundongos adultos
CORN SNAKE
Nome genérico dado a cerca de 24 espécies,
muito encontradas nos milharais dos campos norte-americanos, canadense e
mexicanos. Por isso são chamados de corn, que significa milho em inglês.
Foram as primeiras serpentes comercializadas como pets nos EUA, pois se
reproduzem muito facilmente em cativeiro. Ativas, movimentam-se mais no período
da manhã. A umidade ideal é de mais ou menos 60%. Nascem com
aproximadamente 25cm. As adultas podem chegar a 1,80m, mas o comum é que
não passem de 1,5. Têm dentição áglifa. Ovíparas,
botam até 20 ovos.
Alimentação aproximada por semana:
PARA SABER MAIS
Clubes: American Federation of
Herpetoculturists, PO BOX 300067 Escondido, Califórnia. 92030-0067 - Tel:
(001 619) 747 4948.
Lojas: Bioterium tel.: (011) 959-8561. Fazenda Visconde (016)
625-4319. The Zoo (011) 280-4956.
Livros: Snakes as a Hobby, de Thomas Leetz. Editora T.F.H.
Publications, Neptune City, NJ-EUA. The Book of Snakes, de John A . Burton,
Editora Crescente Books, Nova York-EUA. Atlas Anatômico de Boa Constrictor
(Jibóia), de Giuseppe Puorto, à venda na Biblioteca do Instituto
Butantan.
Revista: Reptiles, tel: (001 714) 855 8852.
Agradecemos aos entrevistados e à consultoria de
Marcus Buononato e Giuseppe Puorto que fizeram a revisão técnica
deste texto. O nome Fernando Legacy, do proprietário das jibóias, é
um pseudônimo.
Reportagem: Rodrigo Flores e Flávia Soares.
Texto: Flávia Soares
Foto: Fernando Torres de Andrade
Prop.: Bioterium


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